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24.o Festival Anual
de Teatro Académico
de Lisboa
MAIO,
FATAL MAIO
DE 15 A 25 DE MAIO,
NA UNIVERSIDADE E NA CIDADE.
A missão do Festival Anual de Teatro Académico (FATAL) é, desde a sua primeira edição, promover e divulgar o Teatro Académico, garantindo-lhe um lugar de honra na oferta cultural da cidade.
Na sua 24.ª edição o FATAL volta a presentear os mais novos com duas atividades FATAL Kids, no dia 17: uma viagem mágica pelo Jardim Botânico Tropical e uma visita aos bastidores do LU.CA - Teatro Luís de Camões. Haverá também espaço para a fotografia de espetáculo, num workshop desenvolvido pelo MEF – Movimento de Expressão Fotográfica. Além disso, subirão a palco 14 espetáculos, distribuídos por três categorias.
Em 2025, de 15 a 25 de maio, na categoria “Em Competição” apresentar-se-ão 6 espetáculos selecionados por um grupo de especialistas. Também teremos, na categoria “Mais FATAL”, 7 espetáculos de grande qualidade, e na categoria “FATAL Convida” contamos com um grupo internacional, contribuindo para a diversidade do festival.
Mais uma edição, mais um ano em que o FATAL coloca a ULisboa e a capital na rota dos grandes festivais europeus de teatro universitário.
Contamos com a vossa presença!
HOMENAGEM
ROGÉRIO DE CARVALHO
(1936-2024)
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Rogério de Carvalho será sempre uma figura incontornável no panorama teatral português e um nome fundamental na história do teatro académico.
Nascido em Gabela, Angola, iniciou a sua carreira ainda enquanto estudante do Conservatório Nacional de Lisboa, atual Escola Superior de Teatro e Cinema, onde lecionou até 2007.
Ao longo de quase 60 anos de carreira, distinguiu-se como encenador e professor, utilizando o teatro como uma poderosa ferramenta de formação, análise e transformação. Com uma abordagem rigorosa e apaixonada, elevou o teatro académico a novos patamares, incentivando uma prática cénica que uniu tradição e inovação, utilizando o palco como espaço para debater ideias e promover o espírito crítico.
Nesta justíssima homenagem, o FATAL reconhece a sua dedicação a esta arte tão inclusiva e transformadora, e sublinha a sua contribuição para a formação de gerações de artistas que com ele aprenderam a viver o Teatro como espaço de liberdade e humanismo.
JUNTAMO-NOS AQUI PARA DIZER:
OBRIGADO, ROGÉRIO!
UMA VIAGEM
SANDRA HUNG
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Não existem palavras suficientes. Tudo o que tentar dizer não chegará; não há palavras para descrever a dimensão deste grande homem que, segundo o próprio, se casou com o Teatro. O Teatro da Palavra. O teatro da palavra não ficará mudo, permanecerá não só nos que tiveram o privilégio de trabalhar com ele, mas em todas as gerações futuras de atores, encenadores e dramaturgos.
O seu alcance será infinito, e não apenas no teatro português. O Rogério de Carvalho faz parte da nossa história e da história do próprio teatro. Ele é um património vivo. As gerações de actores que por ele passaram levarão a palavra do Rogério além-fronteiras. Não há limites.
Não sentirei falta apenas do meu encenador de eleição, com quem trabalhei exclusivamente na última década, e com quem, juntamente com Paula Garcia e João Chicó, apresentei o que viria a ser a sua última encenação. Estávamos a preparar o próximo trabalho para 2025, ensaiámos em agosto... Perco também o melhor amigo, o confidente, o companheiro das conversas de madrugada e dos almoços na nossa tasca ou em minha casa. Já não terei que lhe colocar o cinto de segurança, porque ele ocupará um lugar imaterial no meu carro e em mim também. Ele viverá nas salas de teatro e nas ondas da praia de Sesimbra, onde acampava há 40 anos, como ele dizia, selvaticamente. Inventava palavras; odiava ser chamado de mestre e era a pessoa mais generosa e jovem que conheci. O seu trabalho era inovador, vibrante e vivo. Dizia-me: “Sandra, põe o pé na embraiagem, mas não te esqueças do modo vivace.” Viva, o Rogério!
O PROFUNDO PRESENTE
PAULA GARCIA
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É uma relação incaracterística, a que tinha com o Rogério de Carvalho. A minha e a de muitos. Dizer que perdi um amigo, parece dizer pouco em relação a esta perda. “Perdi um mestre”, nunca diria, até porque o Rogério detestava ser assim chamado e transformado em doutrina, mas compreendo que quem o diga, o faça com carinho e amor, porque é muito difícil encontrar palavras para descrever o impacto que o “cometa Rogério” teve em muitas das nossas vidas.
O Rogério nunca gostou de se repetir e o processo de teatro, para ele, era sempre um processo de investigação contínua sobre o som e a imagem, ou sobre a palavra e o movimento, como poderia ser traduzido por outros. Numa entrevista que deu a Paula Moura Pinheiro, no "Câmara Clara", da RTP, referia que o processo de trabalho de uma cena é semelhante à resolução de um problema matemático (ele tinha também sido professor de matemática): começa-se com uma hipótese, desenvolve-se essa mesma hipótese entrando num desconhecido, até que se chega a uma solução que nos volta a dar algum conforto ou vontade até de a partilhar com outros.
Havia um tipo de intimidade de partilha que eu e os meus colegas atores tínhamos com ele, que nunca tive com ninguém. Uma espécie de pacto de guerra com o que mais importa. Aconteça o que acontecer. Uma intimidade expandida em palco para com pessoas desconhecidas sentadas no escuro. É tão estranho e mágico isto de nos darmos a desconhecidos, não é verdade, colegas?
Conheci o Rogério com 19 anos, no teatro universitário, no TEUC. Hoje tenho 47 anos. A primeira conversa que tivemos foi sobre a equação de onda de Schrodinger. Foi o Rogério que me mostrou que, como dizia o outro, afinal o que importa é fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício, neste caso, no desconhecido, em palco. Nunca me repetir. Trabalhar para conseguir mergulhar. Estar em cena a tecer tempo.
Devo muito à Sandra Hung ter trabalhado com ele no último ano da sua vida. A relação de confiança e de trabalho que tínhamos os três era como nadar no mar.
Consegui despedir-me dele a dizer banalidades, porque eu sou pirosa e não consegui estar à altura daquela situação. Nem deste depoimento. Seja como for, as mais altas trocas de pensamento entre mim e ele, as epifanias partilhadas, ocorreram sempre em silêncio.
Todas as palavras parecem gavetas. Todas as combinações de palavras parecem frases moles. Tudo o que é dito é incompleto, mas cá seguiremos, sempre com ele gravado nas nossas mentes.
Falar sobre a importância do Rogério na minha vida e no teatro, é difícil. E escrever parece um exercício com a solução “impossível”, como acontece na Matemática. Num dos últimos ensaios que tive com ele para o espetáculo 3 Nomes Próprios (da Artes&Engenhos, com a Sandra Hung) o Rogério disse-me que a palavra dita, atira-nos para o mundo por causa do som que torna o profundo, presente. Talvez venha daí a minha incapacidade em falar sobre o Rogério, a menos de um ano da sua morte.
O ROGÉRIO
SOFIA LOBO
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Guardo comigo os guiões dos espetáculos em que participei ou que dirigi, bem como os respetivos cadernos, em que escrevi tudo o que pude. Por vezes encontro neles o dia exato em que alguma memória se atravessa, ou as vozes que saem do folhear das páginas. Trabalhei somente quatro vezes com o Rogério de Carvalho e devo-o ao TEUC e a A Escola da Noite: Auto da Índia, de Gil Vicente; O Triunfo do Amor, de Marivaux; O Cerejal, de Tchékhov; Cinzas..., de Pinter. De 1988 a 2018 vai uma vida, mas estes quatro momentos foram estruturadores da minha. Tal como os sacos de plástico do Rogério, cheios de livros, maçãs e sabedoria, o seu fiel gravador e, no início, os SG Gigante que acendia uns nos outros, no mal ventilado teatro de bolso da Associação Académica, onde aprendíamos sob a névoa a verdade da mentira que é o teatro. Os cigarros, deixou-os pelo caminho, os sacos, não, muito menos o gravador, embora este se tenha modernizado.
Com o tempo, apareceu também uma muleta, e a lentidão nos movimentos. Nos meus cadernos, e na minha memória, «partitura», «quadragem», «instalar o facial», «armazém», «zona», «descascar a cebola», «interstícios», «não sei se tou-me a fazer perceber» repetem-se. E tantas referências: autores, livros, filmes e filmes. Aprendi com ele o respeito pelo imprescindível silêncio, de onde tudo nasce, e, porque o tímido Rogério era um bom conversador, habituei-me a ouvi-lo com a maior atenção. Se me telefonava, a meio de um outro trabalho, ou eu a ele, eram quase sempre longas, as conversas, e eu tinha papel e lápis, para aprender, aprender sempre. Os ensaios eram difíceis, por vezes mesmo duros. Tal como o Rogério gravava baixinho as suas frases, as dos textos, livros e filmes, e repetidamente as ouvia, nós podíamos passar horas em meia dúzia de linhas, e o Rogério cavava, cavava sempre mais fundo. Quando uma frase chegava aonde ele queria, a descoberta mútua trazia centelhas de emoção, como estrelas que nunca soube de onde vinham, e essa luz, de uma total intimidade, era a verdadeira razão do prazer de ser dirigida pelo Rogério, num despojamento cada vez maior e numa total entrega, na procura da palavra certa, ou do gesto; do gesto exato que era o único possível, ou era melhor não ser. Quantas vezes ouvi o Rogério dizer «Não!», mesmo antes de eu dizer fosse o que fosse, e ambos sabíamos que ele tinha razão, mesmo que eu não percebesse porquê: eu ainda não estava lá, no momento do gesto ou da fala, no momento da frase.
Também tive viagens físicas com o Rogério: Antuérpia, Paris, Bissau, não recordo se também São Tomé. E por cá, algumas outras. Em 2019 remontámos Cinzas… e em março apresentámos o espetáculo na Covilhã. A personagem mais complexa que eu representava nesse trabalho, Rebecca, não tendo idade para ter vivido o Holocausto, era sua herdeira, de memórias e/ou fantasias, e a certa altura evocava uma cena terrível passada na neve. O Rogério nunca tinha visto neve, embora a tivéssemos discutido muito. Na manhã seguinte, eu e ele subimos à serra, que se prometia ainda branca aqui e ali. Havia realmente alguma neve, e o Rogério olhava-a sorrindo de dentro do carro que eu conduzia lentamente. Com o tempo, passara a acompanhá-lo também o uso de frases suspensas, porque as palavras lhe chegavam mais devagar, ou seria para testar a nossa atenção? Nessa manhã, de facto, os pontos coloridos que se moviam ao longe, no branco, faziam lembrar…
— Brueghel, Rogério?
— Sim.
(E como não pensar, desde que o Rogério morreu, no último filme de Kiarostami?)
A certa altura, parei. O Rogério ficou à beira da estrada a observar o branco, eu fui-me à neve, que desde sempre amo. Trouxe-lhe um punhado. O Rogério cheirou-a, provou-a, disse…
— É boa.
Voltámos ao carro. O Rogério pôs aos bocadinhos o seu pedaço de neve dentro da garrafa de água e foi-a bebendo devagar enquanto descíamos a serra pelo outro lado, sempre, sempre a falar de teatro.
Em Coimbra, aguardando o comboio que o levaria a Lisboa, almoçámos esfomeados à sombra de um belo tinto que nos avermelhou os sorrisos.
O sorriso do Rogério era doce. E emocionava.
“O TEATRO É TRAMADO. MENTIR É TRAMADO.”
WAGNER BORGES
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1.
Soube desde o primeiro momento que este [a morte de Rogério de Carvalho], seria mais difícil do que os outros. Um núcleo pequeno, foi-se apoiando e partilhando informações acerca da realidade e à semelhança de outros episódios, quis acreditar que ultrapassaria mais este.
Não aconteceu. (Pausa).
Corria o ano de 2005 quando, ao me perguntarem porque não continuava na Escola Superior de Teatro e Cinema e fazia, desta forma, a Licenciatura, respondi que preferia licenciar-me na prática, na experiência em trabalhar, uma vez mais, com o Rogério. O convite era inevitavelmente mais desafiante. Dito e feito. Quatro meses tiveram a expansão de dois anos letivos. Quiçá mais.
Na terceira semana de ensaios, encurralado por ter feito a escolha, (aflito, aliás) percebi que estava rodeado por um grupo de profissionais (e pessoas) incríveis, a Céu e o Miguel, em trapézio comigo, a Carla que soube fazer a ligação entre dentro e fora de cena de forma magistral, sem nunca ser maternalista ou imperativa, e também o Jorge, a Cláudia e o texto do Howard Barker - uma dádiva, como sempre, diga-se - com uma magnífica tradução do Pedro. E claro, o Rogério.
Quando me apercebi no que estava metido, na dificuldade do trabalho, o quanto seria desafiante e perante as suas palavras: “que talvez não fosse o melhor encenador para aquelas «Mãos Mortas», que talvez fosse melhor chamar o Cardoso e que eu o estava a enganar” resolvi dar o meu lugar a outro actor. O ensaio a correr. A minha deixa “senti-me constrangido”. Pausa e uma leve brisa de riso. Seguido de um ataque de riso, tal era o descarrilamento. Ele parou-me, disse o que disse, incluindo a certeza de que eu estava a rir porque não o respeitava. Abandonou a sala, munido dos seus sacos, com pelo menos uns 12 livros. A Rua do Heroísmo, casa d’AS BOAS RAPARIGAS... tornou-se na do Abismo. Voltou depois do almoço e eu disse-lhe que talvez fora um erro escolher-me. O Rogério riu, repetiu que também ele não seria o certo, mas sugeriu que talvez encontrássemos em conjunto, nesse erro, o caminho certo. Dispensou a Céu e o Eloy. Perguntou se eu confiava nele e claro que após a minha resposta afirmativa, ficámos os dois, uma cadeira e o texto. Trabalhámos de seguida 17 horas.
2.
Sem parar. Sem comer, fumar, beber água. Sem wc. Os dois. Frente a frente e apenas avançámos uma página de texto. Como ele gostava. Trabalhar. Retroescavar. Eu quebrei por fim. E esboçado novo sorriso, disse-me “tu és tramado. Agora percebi que te estavas a defender”.
Eu sempre venerei o Rogério. É público. N’Os Europeus, tinha uma deixa “Eu venero-o! eu venero-o” e percebi a funcionalidade do meta-teatral, já que noite após noite, no Teatro Carlos Aberto, no Porto, atirava-lhe a enunciação. Não era para a personagem ou o ator colega. Eram para ele, aquelas palavras. Inteligência. Maturidade e uma sensibilidade, eficaz. Crua. Porque amava os seus atores e queria empurrá-los para lugares onde apenas a ficção importa e permite a sua existência. Nunca conheci ninguém como ele. Os adjetivos seriam longos, salientando claro, o óbvio, a sua importância social, cultural, o quanto quebrou barreiras e construiu um Saber, ao longo de mais de 50 anos. Não é só e apenas o legado teatral, na sua teoria e prática, mas um conjunto de pensamentos e elegância estética, que sempre o diferenciou. Sempre isento de efeitos. Apenas dureza. Apenas representação. “Apenas”. Após a estreia, com o Barker na sala, senti-lhe o ciúme. Natural. Mas insento de vaidade. Sempre nos bastidores, já que não gostava de exposições bacocas. Tudo menos isso. “A vaidade irá matar o teatro”. E se de um lado respirava a humildade, do outro, o oposto, já que “o teatro já não aguenta o drama. Precisa de Catástrofe”. Mas o Barker apaixonou-se pelo Rogério, cedendo-lhe direitos, escrevendo diretamente para ele e para a Companhia, que extinta, fez o que mais nenhuma outra o conseguiu.
3.
Quando recusei o convite para ir trabalhar com este, na sua Companhia Wrestling School, contei-lhe. O Rogério, com ar infantil (e manipulador, como só ele sabia o ser) sorriu e disse “ele é que perde. Mas eu fico a ganhar”. Talvez o maior elogio que alguém algum dia me tenha feito e fez. Aliás, o único elogio indireto que me fez. Acrescentou que o elogio, principalmente o falso, sente-se. “As pessoas mentem muito na vida, depois chegam ao palco e tentam representar a verdade. Não conseguem”. A ficção consegue ser sempre pior que a realidade. Voltámos ainda mais duas vezes ao Barker. Fui o seu Astrov e o seu Orphus, respetivamente no Tio Vânia e n’Os Europeus. O seu, porque a ele, lhe pertenci. Mesmo com o Cláudio, no Hamlet. Mesmo com o seu Iconoclasta, um surrealismo puro do Fernando Amado. Ouvir o Rogério rir do nosso trabalho é, com certeza, a maior orquestra para os nossos ouvidos.
Na cena da morte do Hamlet, ele parou o momento e disse à Cláudia que ela estava a fazer bem, mas que era difícil, porque ela nunca havia morrido. Logo, não poderia saber fazer.
“O teatro é tramado. Mentir é tramado”.
O Rogério entre pianolas e lambretas, entre olhar para a televisão no restaurante, para o seu Benfica ou a estudar a partitura física do Fernando Mendes, entre ver o mesmo filme umas 15 vezes, por causa de uma única cena e referenciá-la, entre o copo de vinho branco e 16 barrinhas de cereais comidas num ensaio de 3 horas, os dentes de alho pela manhã, ou algum docinho que o fazia levantar da cadeira, moldou, editou, ergueu, solidificou uma quantidade inclassificável de atores, de alunos-atores, de alunos, de pessoas, em vários países, em várias escolas, em várias companhias e em vários espetáculos.
Hoje a sua referência persiste, em quase todos aqueles que continuam no ativo. E uma coisa é certa, nunca conheci alguém que amasse tanto o teatro. Que lhe reconhecia a dificuldade, que lhe devolvia o mérito. Uma paixão maior do que a vida e por isso regressou tantas vezes à ficção. Talvez a sua sala de jantar fosse a sala d’O Cerejal. Talvez o seu quarto, fosse onde “um rato! um rato” encontrou a morte.
4.
Regressou sempre a lugares onde foi feliz, mas onde vasculhava as respostas às suas perguntas. E tinha pressa, como tinha pressa. Uma vez, eu e a Paula, conseguimos apresentar 13 versões de uma mesma cena. Todas diferentes. Ele propôs encontrarmos mais. “Quando vocês descansam não acontece teatro. Os intérpretes são preguiçosos”.
Ouvir o tempo, respeitar o tempo, encontrar o tempo.
“O ator também é tempo” - choro copiosamente, porque lhe ouço a voz. Apresentámos 17 versões. Ele reuniu-as a todas numa 18º.
Exaustivo, obcecado, frio, duro, apaixonado, envolvente, sedutor, amigo, carrasco, tirano, um depurador das nossas emoções, de uma constante tentativa em desconstruir o mecanismo da representação, dando primazia à zona, à mancha, ao beat da cena. Um Mestre e um Génio, amado e odiado, como todos os demais.
O Sopas. O Eloy. A Laurinda. A Apologia de Sócrates.
Eles. ELE.
O Rogério foi nomeado, ganhou prémios, teve um dos seus espetáculos como um dos 25 melhores (europeus) do Séc. XX. Foi elogiado por todo o lado e em Portugal, sobrou-lhe tão pouco.
Foi o primeiro ator negro a ser referenciado no Teatro. Foi o primeiro Encenador negro a ser referenciado. Sofreu a consequência de um preconceito sistémico. Racial. Geracional. Lutou. Ficou quieto no seu canto. A melhor forma era o que fazia na cena. Não fora dela. Não lhe sobrou ser o melhor de nada, nenhum cargo público, nenhum gabinete, nem poder político, nem causas, nem ser um farol promissor de nada, como agora é fácil (e de interesse) nomear.
“Eu rio-me, eu rio-me. Eu, rio-me” diz o Imperador Leopoldo, n’Os Europeus de Barker. Após a extinção d’AS BOAS RAPARIGAS, estrutura em que fez parte integrante do seu nascer, restou-lhe calendários e salas inseridas na programação de algumas Companhias, de alguns Teatros. Sobrou-lhe pouco, repito, perante a sua imensidão e conhecimento.
Nenhuma casa.
Poucos o programaram. E agora virão as homenagens. Tenho a certeza, claro. Faz parte. E ele deverá estar a detestar isto tudo, incluindo este meu despejo emocional.
A sua maior herança: ser uma referência para uma geração. Que o respeita. Inspirou, deixou discípulos, muito diferente de muitos outros. Desse tempo. Doutro tempo.
5.
E do tempo de agora.
Tudo isto é passageiro, eu sei.
Não consigo parar o meu Monólogo Interior da Personagem.
Estou em loop, a debitar texto.
Fomos todos uns pouco chutados para canto, não fomos?
O último espetáculo do Rogério: 3 Nomes Próprios - Artes e Engenhos. Vi em Almada. Este ano. A Sandra e a Paula. O Chicó. ELE, sempre o Rogério.
Senti na altura a nostalgia sincera e emotiva de um lugar onde a matéria da conduta, isenta de vaidosismo, era traduzível no desapego das atrizes. Apenas a voz no seu perfeito estado de êxtase. O exercício, nunca no lugar comum, ou no “teatro da Cozinha”. O que é isto do Naturalismo? Elas, esculpidas pelas palavras. Elas na ascensão de um divino.
Quando o abracei, no fim, não sabia que daquela forma, seria um fim.
(câmara de eco)
Quero acreditar que chegada à hora, sozinho, como sempre assim trabalhou, foi recebido pela Natália de Matos, com pelos menos uns 2 quilos de miniaturas de pastéis de nata. Assim como todas as outras que com ele viveram diariamente: Hamlet, Ofélia, Liuba, Masha, Lopakin, Nina, Treplev, Hipólito, Fedra, e umas quantas mais. Reunidos, deram-lhe a mão. Talvez a passagem tenha sido mais de acordo com aquilo que sempre procurou.
Não digo isto para causar nada. Acredito mesmo. Embora ouça a sua voz a dizer “Estás a ser dramático. Estás a ser lamechas. Estás a ser chato. Por isso o teatro é chato. Repete.”
É verdade, Rogério. Neste momento não consigo deixar de o ser.
Não estou a (tentar) representar nada.
Continuo a defender a lamechice face a tanta canalhice.
6.
Ainda encontrou tempo para ver alguns dos trabalhos que desenvolvi enquanto encenador ou cocriador com o Tiago. Falávamos muito. Críticas, detalhes. Artifícios da teatralidade. Ele não se isolava e procurava ver o que "os seus" andavam a fazer. E no seu sorriso maroto lá ia dizendo: "agora és criador... De quê? Galinhas?"
Em plena passagem de ano 2008-2009 ligou-me para falarmos do Hamlet. Andava obcecado com a hipótese deste estar nu, na famosa cena do quarto. Andava desmotivado, porque queria encenar e não tinha lugar. Compreendo-o tão bem.
"O nosso lugar será sempre onde nos querem", disse-me antes de me dizer que queria repetir o meu Cláudio, caso fosse para a frente o projeto. O meu ano começou esperançoso. Não aconteceu.
Anos mais tarde, recebi um outro telefonema, de um outro encenador, a anular o convite feito para uma nova versão do Príncipe Dinamarquês. Só que desta vez, foi no Natal.
(pausa)
O Rogério de Carvalho morreu (1936-2024).
E nada será como dantes. OBRIGADO.
Barker, Sarah Kane, Genet, Koltés, Fassbinder, O’Neill, Moliére, Tchekov, Shakespeare, Schnitzler, Gil Vicente (entre tantos outros), podem descansar agora também.
Um abraço a todos vós.
Um abraço a nós, que tivemos o privilégio de ser conduzidos por.
HORÁCIO: “Que nobre alma! Adeus, meu adorado príncipe, os anjos do Céu o embalem com os seus cânticos divinos. Mas por que é esta marcha?”
ELE sorri.
Podem fechar o TASCO.
"Vocês estão a fazer-me compreender?"
ESPE
TÁCULOS

O TEATRO
A QUEM O TRABALHA
Num ano de convulsões militares, sociais e políticas, torna-se demasiado evidente a importância do “espelho do momento” no teatro. Os grupos académicos refletem isso. Em seu redor, na universidade que habitam, as ideias de fim de era impõem-se ao espelho. O que fazer? Cada ideia, cada intenção, cada coletivo, cada ensaio, cada discussão, cada récita e cada conversa com o público é contaminada pelo momento do reflexo do fim de era. Que posição tomar? O grupo é questionado e tem de decidir a sua posição, optar por uma qualquer resposta, mas, sem conseguir parar para pensar, é difícil assumir uma posição. O grupo é o espelho da polis, é o local de onde se pode ver o dilema: o medo do que aí vem, ali, todos os dias na superfície polida do espelho.
É, então, importante trabalhar sobre o tema do medo. Colocar os cidadãos do futuro a escarafunchar sobre o que os/nos apoquenta, e isso dá trabalho. Que as coisas do medo são de fugir a sete pés! Mas o trabalho, essa palavra com origem num instrumento de tortura com três estacas de madeira, que permitia torturar ou ferrar pessoas e animais, traz-nos à memória a dor e o esforço que são necessários para uma promessa de satisfação posterior que pode nunca chegar.
Foi isso que vimos transmutado nas propostas cénicas deste ano: o esforço compensado. O esforço de garantir a continuidade dos elementos do grupo ao longo do tempo; o esforço de manter um espaço fixo para trabalhar; o esforço de investir tudo numa identidade coletiva que promova dignamente cada uma das individuais.
Como dizia Irina, com a cabeça encostada ao peito da irmã Olga, no Ato IV de Três Irmãs de Anton Tchekov: “(...) Virá o tempo em que cada um saberá o porquê de tudo isto, o porquê de tantos sofrimentos, deixará de haver mistérios de qualquer espécie, mas até lá é preciso viver... é preciso trabalhar, trabalhar e mais nada! (...)” Irina já nos avisava, há cem anos, precisamos de continuar a ir amanhã, num daqueles amanhãs eternos, para ensinar na escola e oferecermos a nossa vida àqueles para quem teremos alguma utilidade. Tchekov lembra-nos que é outono e em breve será inverno, a neve cobrirá tudo. A incerteza desse futuro é a mesma com que agora tantos estudantes ainda têm de trabalhar. O trabalho inestimável que se percebe nos grupos de teatro académico, marcado por uma infeliz diferença entre os que têm espaço para investigar, tempo para questionar e condições para existir verdadeiramente. Nos grupos em que a fisicalidade do teatro teve tempo para transparecer no corpo e na voz, que uma forte e verdadeira ideia coletiva conseguiu levitar acima da diversidade das opções individuais, que a criatividade permaneceu o motor da participação cívica entre criadores e espetadores. E isso deu trabalho, muito trabalho!
Na edição deste ano, a heterogeneidade das propostas levou a uma escolha bastante eclética que sublinha a importância do trabalho continuado nos grupos selecionados para a competição: GTIST, mISCuTEm, NNT, SINCERA, TEUC e TUP.
Nestes grupos, o investimento realizado tem solidificado os seus trabalhos e elevado as suas participações. Nos conceitos propostos e na qualidade da tradução cénica das intenções; no foco dos intérpretes, na coletivização da intenção, na atualidade da proposta; nos que estão dentro a ver para fora do castelo ou até fora da gravidade do planeta terra; da sátira social ao mundo profissional que os aguarda de dentes afiados e braços abertos; na capacidade daqueles que criam luz própria na noite que se aproxima; no ativismo da mente contra o espaço vital do próprio corpo; nas histórias que as paredes de uma casa podem conter e na crença inabalável no Teatro e na Universidade, na cidadania criativa e na leitura livre do mundo que nos rodeia.
Para lá dos seis grupos escolhidos, muitos outros apresentarão o seu trabalho no FATAL. O Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa testemunha que é preciso investir urgentemente nas condições de trabalho dos grupos de teatro académico, encontrar verdadeiros espaços de trabalho que garantam que os estudantes universitários vivam para além da ideia do sucesso profissional, da independência financeira, da popularidade nas redes sociais e forjam o seu próprio lugar na pólis, pensando-a, representando-a, intervindo.
VIVA O TRABALHO ACADÉMICO!
VIVA O TEATRO ACADÉMICO!
Paula Garcia
Pedro Marques
Pedro Saavedra
OU
TRAS
CENAS
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Na sua 24.ª edição, o FATAL traz Outras Cenas a vários espaços da cidade.
Garantimos: em maio não encontram Outras Cenas mais interessantes para fazer.

3. GRANDE AUDITÓRIO DO ISCTE
Av. Prof. Aníbal Bettencourt, 9
Avenida Gomes Pereira 17
1649-026 Lisboa
4. SALA DO GTIST - GRUPO DE TEATRO DO INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO
Av. Rovisco Pais 1
1049-001 Lisboa
4. TEATRO DA COMUNA
Av. Calouste Gulbenkian
Praça de Espanha
1070-024 Lisboa
RESERVAS
Os espetáculos são de entrada livre mas sujeitos à lotação da sala.
Os pedidos de reserva devem ser realizados através do email fatal@campus.ul.pt até às 13:00 do dia do espetáculo. As reservas carecem de confirmação.
As portas abrem 60 mins antes do espetáculo, e o levantamento dos convites deverá ser realizado até 30 mins antes do início do mesmo.
Classificação etária: M/14
PRÉMIOS
Para a 24.ª edição do FATAL, foram selecionados 6 espetáculos para integrar a categoria de competição.
Graças ao patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa, o FATAL concede, uma vez mais, dois prémios com vertente pecuniária: O Prémio FATAL distingue o melhor espetáculo e o Prémio FATAL – Cidade de Lisboa consagra o espetáculo mais inovador.
O Prémio FATAL do público é atribuído ao espetáculo que obtém a mais alta classificação dos espetadores do Festival.
A cerimónia de entrega de prémios desta edição decorre no dia 30 de maio, pelas 17h00, no Auditório da Cantina Velha.
COMISSÃO DE HONRA
Dalila Rodrigues
Ministra da Cultura
Rui Pina Coelho
Diretor do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da ULisboa
Carlos Moedas
Vereador da Câmara Municipal de Lisboa
António Feijó
Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian
António da Cruz Belo
Presidente do Instituto Politécnico de Lisboa
Fernando Alexandre
Ministro da Educação, Ciência e Inovação
JÚRI
Pedro Goulão
Dramaturgo
Teresa Faria
Atriz
Paulo Morais
em representação da Escola Superior de Teatro e Cinema
Cláudia Matos
em representação da Câmara Municipal de Lisboa
Marta Lourenço
em representação da ULisboa
Helena Simões
em representação da Fundação Calouste Gulbenkian
Raquel Raimundo
em representação do Centro de Estudos de Teatro





























