Exposição da artista Roberta Goldfarb.
Resultado de um processo de investigação artística e afetiva, "Bem Me Quer" apresenta uma instalação de fotografias em grande formato composta por cerca de 12 flores oferecidas à artista pelos seus filhos ao longo de 11 anos. A artista vai apresentar parte desse processo de trabalho, proporcionando ao público entender cada etapa: ao poder observar alguns exemplares de flores originais, a sua catalogação inspirada em um herbário, dialogando assim com o museu e suas coleções, e objetos que fazem parte da construção desse longo projeto.Uma coleção de afetos
Com a exposição Bem me Quer da artista visual Roberta Goldfarb o laboratório de Química Analítica deixa de ser um lugar acético para se tornar num jardim/herbário suspenso onde as flores dominam o espaço. A estética expositiva centra-se num conceito pragmático inserido numa poética onírica de afetos que estimula a nossa relação com a Natureza.
Como nos diz a artista a sua pesquisa “baseia-se numa taxonomia dos afetos em que objetos, conceitos e linguagens são reunidos, organizados e classificados numa poética que se materializa em fotografia, objetos e escrita. No momento a minha pesquisa está focada nos resultados das coletas de objetos que, ressignificados, constituem uma coleção dos meus afetos. Tenho me relacionado cada vez mais com a natureza, e vivendo em Portugal descubro a cada caminhar um novo cenário que reflete meu estar no mundo. A partir disso colho sementes, flores e conchas que tem características muito diferentes das que eu estava acostumada a ver no Brasil.”
A exposição como resultado deste processo de investigação que advém do ser humano dual, daquele que é natureza e que, ao mesmo tempo, se consubstancia no mundo através da técnica com o ser humano e com o seu entorno. Roberta Goldfarb, transforma e cria objetos artísticos em diversos materiais, fotografias, palavras, signos, símbolos, objetos em harmonia com a Natureza materializada numa humanidade que se origina, se dissolve e se integra na temática do museu. “Imortalidade pela transformação na natureza. — Dentro do mundo não há lugar para outras criações. Há apenas oportunidade de reintegração e continuação. Tudo o que poderia existir já existe. Nada mais pode ser criado senão revelado.”[1]
A artista diz-nos que o ponto de partida para a conceção desse trabalho surge das flores oferecidas pelos seus filhos no período de onze anos, assim como enfatiza o gesto de afeto como memória afetiva e não somente como prática trivial. “Desde a infância ele sonhava em conseguir guardar todos os objetos do mundo nas prateleiras das suas estantes. Negava a ausência, o esquecimento ou mesmo a possibilidade de alguma peça lhe faltar.”[2] Roberta Goldfarb partilha os seus objetos artísticos que perduram no tempo como presença-ausência no Laboratório de Química Analítica, num ato efémero.
No centro da sala estão instaladas catorze fotografias de flores em grande formato, criadas a partir de imagens fotográficas, mantêm as cores e as sementes dos exemplares originais. Esta materialização de afetos, é uma forma de preservar o passado da artista, assim como o perpetuar no futuro. A família e a ancestralidade são tópicos teóricos que subtilmente estão presentes na exposição.
Na hotte está instalado um poema da autoria de Roberta Goldfarb, onde a palavra ganha protagonismo, uma outra dimensão estética da artista, a escrita. “A palavra atravessa o espaço, procura e pousa. Ela pousou a palavra em mim.”[3] A obra pictórica expande-se no sentido da palavra como matéria da obra da artista, numa conciliação entre a palavra, o objeto e a fotografia que se projetam metaforicamente neste laboratório.
O colecionismo também faz parte do método de trabalho de Roberta Goldfarb, o seu determinismo em colecionar está na origem desta exposição, onde de uma forma ordenada as flores foram secas uma por uma, no livro de reza que mantem na sua mesa de cabeceira, formando atualmente uma coleção de mais de 300 flores provenientes de regiões do Brasil e de Portugal. Na bancada estão colocadas campânulas que contêm fotografias deste processo assim como textos, onde estão capturados pequenos momentos. Segundo Roberta, “este trabalho pretende mostrar que as plantas possuem uma importância fundamental na geração e manutenção da vida, através da preservação da memória afetiva, o que chamo de taxonomia dos afetos, o que chamo de taxonomia dos afetos.” A exposição vivencia-se no tempo e o tempo faz perdurar o afeto na memória de Roberta Goldfarb como criação artística, onde estes trabalhos são como símbolos e amuletos numa remanescência de sobrevivência afetiva.
Na bancada encontra-se um diário gráfico, escrito em letra de imprensa onde Roberta Goldfarb descreve o antagonismo da flor malmequer, denominada em Portugal e bem-me-quer como é designada no Brasil, de uma forma subtil e poética. Numa outra bancada estão colocadas duas lupas onde se podem observar duas flores em detalhe, com o propósito de se fazer uma ligação com a investigação no museu.
Completam a exposição dois herbários construídos a partir destas flores afetivas, colocados dentro de gavetas, assim como a reprodução de seu livro de reza numa atitude intimista e de clausura. Nesta exposição há uma consciência de preservação da natureza e da família criando uma coleção de afetos. Citando a artista, “essa vivência reforça a inclinação a nos reconhecermos na natureza como pares, seja pela própria organização biológica, pelo comportamento ou pelas relações que estabelecemos com o meio.” O trabalho de Roberta Goldfarb de identidade e de reavaliação da consciência emocional de naturezas fragmentadas esculpidas, resultam na exposição Bem me Quer.
Sofia Marçal
Curadoria: Sofia Marçal
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