Exposição das artistas Graça Sarsfield e Francisca Siza com curadoria de Sofia Marçal.
Exposição de fotografia e vídeo que é um alerta para não se substituir a vida analógica, a Natureza pelo virtual, MetaVerso. Não esquecer que sem a Natureza não sobrevivemos, o entusiasmo que o virtual possa suscitar, jamais a pode substituir, é uma reflexão sobre o que cada um pode contribuir para esta questão, é um problema de estética, mas sem dúvida alguma de ética.
Sinopse
A poética do vértice
Na exposição Sopro, Graça Sarsfield e Francisca Siza, entrelaçam duas gerações num gesto criativo que transcende a linha do tempo e da técnica. Avó e neta encontram-se num espaço poético onde vídeo e fotografia não apenas revelam, mas respiram. São extensão da matéria viva. Artistas com percursos artísticos distintos, encontram-se nesta exposição onde a sua objetividade transcende o seu próprio trabalho individual e se perspetiva na capacidade de sentirem, de racionalizarem e de criarem a Natureza numa poética conjunta.
As três fotografias de Graça Sarsfield, intervencionadas com pintura e impressas em pano, são expressão do corpo como extensão da Natureza. “Tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação de meu começo.” [1] A sensibilidade e a força destes trabalhos remetem-nos para uma estética pós-modernista onde a valorização artística é a própria ideia de organicidade. Complementa esta trilogia uma fotografia singular, apresentada no final da exposição, onde a artista parece lançar tudo pelo ar, um gesto simbólico de entrega e abandono que culmina num renascimento através da Natureza. Essa imagem convida à catarse, à libertação criadora. Complementando este percurso, um livro de artista revisita a obra da fotógrafa com a mesma delicadeza que caracteriza o seu olhar. Esta peça, concebida para ser manuseada com cuidado, carrega o gesto íntimo da arte que se revela aos poucos, tal como a Natureza e como o corpo.
A instalação de Francisca Siza é composta por dez monitores de diferentes épocas, evocando o arquivo tecnológico como matéria de reflexão estética. “Sempre que tentámos defender novas técnicas, estávamos certos, e a história e o tempo justificaram essa atitude. Por outro lado, sempre que alguém tentou defender uma posição puramente estética, mesmo que parecesse assentar em inovações técnicas, enganou-se sempre, por mais inteligente que fosse.” [2] A obra, com o título C6H12O2+6O2, parte de um texto narrado na primeira pessoa. Esse texto desenha imagens fílmicas que oscilam entre performance e paisagem, entre humanos e Terra. Quem narra? O público é desafiado a encontrar-se na voz, ou a reconhecer-se na ausência dela. “Devo restringir-me a traçar um painel de esboços imperfeitos e fragmentários, em lugar de tentar produzir uma imagem completa. O máximo que posso esperar obter é um kit identitário, um retraio compósito capaz de conter tanto lacunas e espaços em branco quanto seções completas.
Mesmo essa composição final, contudo, será um trabalho inacabado, a ser concluído pelos leitores.” [3] Assim, cada espectador torna-se parte da peça, um intérprete da memória. A obra assume-se como uma reflexão multidisciplinar e metafórica sobre o papel do ser humano na Natureza, evocando a fragilidade das conexões que sustentam a vida e convidando o público a repensar o seu lugar nesse equilíbrio, não como observador, mas como agente transformador.
A narrativa estética desenvolvida na exposição representa uma intenção deliberadamente virtual no campo do pragmatismo estético, “como pode a arte falar a linguagem de uma experiência radicalmente diferente, como pode ela representar a diferença qualitativa?”[4] questões levantadas por Herbert Marcuse expressas na exposição. Uma vez captada a atenção do espectador, é possível contemplar as diferentes abordagens estéticas através do olhar da imaginação num vértice poético.
Todos estes tempos se tocam, confundem e dissolvem-se num novo tempo. Tempo parado em movimento. “Mas sou também esperança. Sou o primeiro fôlego, o nascimento. E, com o nascimento, sou o recomeço, a possibilidade de uma crença maior, alimentando o fogo que propaga a recriação.”[5] Nesse alvorecer simbólico, Sopro é sobrevivência e reinvenção. Uma contemplação da fragilidade e da força, do fim e do princípio, no contínuo respirar da arte. A sobrevivência das abordagens estéticas é perpetuada no tempo, num tempo que já não é o mesmo, mas que ainda está presente.
[1] Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem, p. 11.
[2]Zygmunt Bauman, in: Amor Líquido, Sobre a fragilidade dos laços humanos P. 9
[3] Éric Rohmer, in: Éric Rohmer - Ou o génio do moderno cinema francês. 1º capítulo, Leopardo Filmes, p. 4.
[4] Herbert Marcuse, in: A dimensão estética, p. 43.
[5] Texto de Francisca Siza, cerna da videoinstalação.
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