Dia da Mulher: duas gerações na ULisboa

Dia da Mulher: duas gerações na ULisboa. Sara Feio e Irene San Payo

Dia da Mulher: duas gerações na ULisboa

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No dia da mulher fomos conhecer a história de Irene San Payo e da sua neta Sara Feio. Duas mulheres de gerações diferentes que estudaram na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

Irene entrou para a Academia Nacional de Belas-Artes em 1950. Inicialmente pensou em seguir Agronomia ou Relações Internacionais mas a família disse: “Olha vais para Belas-Artes”.

Recorda-se que na altura tinha umas tias do Norte que acharam um pouco “esquisito” ela ir para Belas-Artes até porque ia ter de desenhar corpos nus, mas como o seu pai era “todo para a frente” acabou por terminar o curso de Pintura em 1955.

É com um brilho nos olhos que conta que a Academia Nacional de Belas-Artes era diferente. Já na altura havia bastantes mulheres. Era uma escola com muita abertura. A turma era muito unida, davam-se todos bem. As mulheres nunca sentiam discriminação, “eramos todos artistas”.

Realça que a própria família tinha uma mente aberta. Nunca sentiu pressão por ser mulher e as suas irmãs também tiraram cursos superiores. “Tivemos sorte porque na minha família tínhamos uma educação mais liberal”, diz-nos Irene e recorda, entre risos, que aos 18 anos começou a usar calças, o que era uma novidade e também um escândalo para as suas tias do Norte.

Depois de terminar o curso seguiu a área académica e tornou-se professora. Na primeira escola que trabalhou (Escola Josefa de Óbidos) só dava aulas a raparigas. Não havia turmas mistas. Nas escolas isso só aconteceu depois do 25 de abril.

Irene relata que uma das suas maiores memórias da Faculdade é de ouvir os professores dizerem: “Nunca deixe de pintar” mas a verdade é que depois casou e teve três filhas e não havia tempo para pintar. Dava aulas, tinha de cuidar das crianças e, claro, que o papel do marido era muito diferente. Em tom de brincadeira diz-nos: “O meu marido nem sabia estrelar um ovo.”

A neta, Sara tirou a licenciatura em Londres, sempre muito inspirada na avó. Mais tarde, seguiu os passos da família e foi para Faculdade de Belas-Artes para tirar o mestrado. Descreve que passar por esta Faculdade faz quase parte da cultura familiar, uma vez que para além da avó também a tia e os primos ali estudaram.

Das conversas com a avó, Sara tem consciência que dentro da mesma Faculdade tiveram percursos muito diferentes. A avó tinha uma parte académica muito mais pesada e atualmente, as pessoas são incentivadas a terem pensamentos “fora da caixa”. É, agora, cada vez mais importante perceber o que é que vai na cabeça do estudante. Ou qual a mensagem que quer transmitir. E apesar da Faculdade de Belas-Artes ser desde sempre uma escola aberta isso estava completamente fora do que se podia fazer na altura.

Sobre o desenvolvimento da mentalidade relativa às mulheres, ambas concordam que já muita coisa mudou mas o mais importante foi a mentalidade dos homens. Sara afirma: “a minha avó trabalhou imenso. E a verdade é que naquela altura se querias trabalhar e ter família tinhas de aguentar o barco como se não houvesse amanhã. Ter os filhos, tomar conta deles, fazer o jantar e ainda trabalhar. E essa é a grande diferença. A geração de hoje pode ter filhos mais tarde. Primeiro desenvolvem carreira e só depois é que começam a pensar em família. Além disso, os homens hoje ajudam muito mais. A realidade mudou essencialmente para os homens. O que mudou não foi a mentalidade das mulheres mas sim a dos homens. E isso é a parte mais importante. E isto em Portugal está a mudar para melhor.”

Fotografia: Filipe Feio