No próximo dia 12 de agosto, Portugal continental vai assistir a um eclipse parcial do Sol. Embora apenas uma pequena zona do distrito de Bragança atinja uma ocultação praticamente total do disco solar, o fenómeno será visível em todo o território continental e promete captar a atenção de milhares de pessoas. Mas há um aspeto que não pode ficar na sombra: a segurança.
“Olhar diretamente para o Sol sem proteção adequada pode provocar lesões graves e irreversíveis na retina”, alerta Rui Agostinho, astrofísico, uma das maiores referências nacionais na divulgação da Astronomia e professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências. Numa altura em que muitas pessoas se preparam para assistir ao fenómeno, o investigador sublinha que “esta é uma questão de saúde pública”.
Na verdade, o perigo é maior precisamente durante um eclipse. À primeira vista, pode parecer contraditório. Afinal, se a Lua cobre parte do Sol, não será mais seguro observá-lo?
A resposta é não.
“Durante um eclipse, a diminuição da luminosidade cria a ilusão de que é possível olhar diretamente para o Sol. Esse é precisamente o perigo”, explica Rui Agostinho. Habitualmente, a intensidade da luz solar leva-nos a desviar imediatamente o olhar. No entanto, durante um eclipse, esse desconforto diminui, levando muitas pessoas a prolongar a observação sem proteção. O problema é que a radiação nociva continua a atingir a retina. E o mais preocupante é que não existe dor.
As lesões provocadas pela observação direta do Sol são indolores no momento em que ocorrem. Os primeiros sinais podem surgir apenas no dia seguinte, quando começam a aparecer manchas escuras, zonas desfocadas ou perda parcial da visão, consequência da queimadura da retina.
A recomendação é clara: a observação direta do eclipse deve ser feita apenas com óculos certificados para observação solar ou com filtros especificamente concebidos para esse efeito. “Os filtros bloqueiam a radiação ultravioleta, os infravermelhos e deixam passar apenas uma fração mínima da luz visível”, explica Rui Agostinho.
Ao contrário de algumas ideias ainda muito enraizadas, nem radiografias antigas, nem vidros escurecidos, nem vidros fumados oferecem proteção suficiente. “É uma boa maneira de queimar a vista”, afirma o investigador, referindo-se a alguns dos métodos que continuam a circular de geração em geração. Também os vidros de soldador só são seguros se forem de densidade 14. Qualquer graduação inferior não garante proteção adequada para uma observação prolongada.
Mitos que importa desfazer
Apesar das campanhas de sensibilização realizadas nos últimos eclipses, persistem muitos mitos. “Há quem diga: ‘Quando era pequeno vi um eclipse com uma radiografia e não aconteceu nada’. O problema é que essa experiência pontual acaba por transmitir uma falsa sensação de segurança”, explica Rui Agostinho. O astrofísico recorda que um breve relance para o Sol dificilmente terá o mesmo impacto de uma observação prolongada, mas alerta para o risco da mensagem ser mal interpretada. “Se eu disser que um segundo não faz mal, esse segundo transforma-se facilmente em meia hora. As pessoas ficam apenas com a ideia de que é seguro.”
É precisamente por isso que os especialistas recomendam não recorrer a soluções improvisadas. Crianças e pessoas com doenças da retina exigem cuidados redobrados. Segundo Rui Agostinho, a retina dos mais novos deixa passar mais luz do que a dos adultos, aumentando o risco de lesão. Por isso, a observação deve ser sempre acompanhada por um adulto e apenas com proteção adequada. Também pessoas com doenças da retina, como algumas retinopatias, ou que estejam a tomar medicação que aumente a sensibilidade ocular devem evitar olhar diretamente para o Sol.
Nas férias e na praia o risco aumenta
O eclipse acontece em pleno mês de agosto, quando milhares de portugueses estarão de férias. Para Rui Agostinho, esse facto aumenta a preocupação. Ao contrário do que aconteceu noutros eclipses, este ocorre fora do período escolar, reduzindo o impacto das habituais ações de sensibilização promovidas junto dos alunos e das famílias. Além disso, a praia constitui um dos cenários de maior risco. Com o horizonte completamente desimpedido e o Sol sobre o mar, muitas pessoas tendem a levantar automaticamente o olhar para acompanhar o fenómeno, frequentemente sem terem consigo os óculos de proteção.
Embora muitos dos óculos distribuídos gratuitamente já tenham esgotado, continuam disponíveis para compra em vários estabelecimentos comerciais. Para Rui Agostinho, a compra pode ser encarada como um investimento. “Teremos eclipses do Sol com elevada percentagem de ocultação visíveis em Portugal em 2026, 2027 e 2028. Se os óculos forem bem conservados, poderão voltar a ser utilizados.”
Face à quantidade de informação que circula nas redes sociais, Rui Agostinho recomenda que as pessoas recorram apenas a fontes científicas credíveis. Tudo o que diz respeito à contemplação segura do eclipse solar, incluindo os diferentes métodos de observação e os equipamentos recomendados, encontra-se disponível na página Astrodica – Como observar o Sol, do Observatório Astronómico de Lisboa, em oal.ul.pt.
Mais do que assistir a um fenómeno astronómico raro, importa fazê-lo sem colocar a visão em risco.
Fonte: Faculdade de Ciências
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